Estruturas de Dados I

Dicionários e Árvores Balanceadas

Igor Machado Coelho

01/06/2025

Dicionários

Pré-Requisitos

São requisitos para essa aula:

  • Introdução/Fundamentos de Programação (em alguma linguagem de programação)
  • Interesse em aprender C/C++
  • Noções de recursividade
  • Noções de tipos de dados
  • Noções de listas e encadeamento
  • Aula de Árvores

Agradecimentos especiais ao prof. Fabiano Oliveira e prof. Fábio Protti, cujo conteúdo didático forma a base desses slides

Tipo Abstrato: Dicionário

Dicionários

O Dicionário (do inglês Dictionary) ou Mapa (do inglês Map) é um Tipo Abstrato de Dado (TAD) que visa oferecer operações de chave-valor. Também é conhecido como mapeamento.

Supondo um mapeamento M do tipo caractere para float, por exemplo:

  • Podemos adicionar uma chave B com valor 100.0
  • Podemos adicionar uma chave C com valor 150.0
  • Podemos adicionar uma chave D com valor 200.0
  • Podemos buscar a chave B, recebendo o valor 100.0
  • Podemos remover a chave D
  • Podemos atualizar o valor da chave B para 120.0
M:
B -> 120.0
C -> 150.0
...

Dicionários na computação

Dicionários são estruturas fundamentais na própria computação.

Por exemplo, algumas linguagens de programação (como Python) oferecem suporte nativo a dicionários:

>>> M = dict()
>>> M['A'] = 100.0
>>> M['A']
100.0

Assim como arrays, servem para armazenar um conjunto de dados de certo tipo (estrutura homogênea). Uma diferença em relação a vetores, é que permitem indexação da chave de busca por tipos arbitrários.

Operações de um Dicionário

Um Dicionário requer 3 operações básicas:

  • consultar chave (do inglês at)
  • adicionar chave-valor (do inglês add)
  • remover chave (do inglês remove)

Definição do Conceito Dicionário em C++

O conceito de dicionário somente requer suas três operações básicas. Como consideramos um dicionário genérico (mapa de inteiro, char, etc), definimos um conceito genérico chamado DicionarioTAD (note que precisamos de dois tipos genéricos, para chave e valor):

template<typename Agregado, typename TChave, typename TValor>
concept 
DicionarioTAD = requires(Agregado d, TChave c, TValor v) {
   // requer operação 'consulta'
   { d.consulta(c) };
   // requer operação 'adiciona'
   { d.adiciona(c, v) };
   // requer operação 'remove'
   { d.remove(c) };
};

Exemplo: Dicionário de char para float

struct DicionarioCF {
   // ... 
   int consulta(char c) {
      // ...
   }
   void adiciona(char c, float v) {
      // ...
   }
   int remove(char c) {
      // ...
   }
};
// verifica estrutura do DicionarioTAD
static_assert(DicionarioTAD<DicionarioCF, char, float>);

Exemplo de Uso com DicionarioCI

Adiciona pares chave-valor ('A', 100.0) e ('B', 200.0). Depois faz consultas e remove chave 'B'.

auto main() -> int {
   DicionarioCF d;
   d.cria();                            // inicializa
   d.adiciona('A', 100.0);
   d.adiciona('B', 200.0);
   std::println("{}", d.consulta('A')); // 100.0
   std::println("{}", d.consulta('B')); // 200.0
   d.remove('B');                       // 200.0
   // ...
   d.libera();                          // libera estrutura
   
   return 0;
}

Como implementar dicionários de forma eficiente?

Existem duas formas eficientes de implementação de dicionários:

  • Árvores de Busca (aula anterior) + Balanceamento (essa aula!)
  • Tabelas de Dispersão/Hash (aula futura)

Árvores Binárias de Busca (breve revisão)

Árvore Binária de Busca: Exemplo

Exemplos de ABB, contendo nós D, E, F, L, M, N e O.

Árvore  com três folhas
Árvore  com cinco folhas

Árvores Balanceadas

Árvores Balanceadas

Um tipo importante de Árvore Binária de Busca é a balanceada, que resolve o problema de degeneração da árvore pelo controle de sua altura.

Tal controle é conseguido pelo cálculo de um fator de balanceamento (FB) para cada nó, definido por: altura do filho esquerdo - altura do filho direito. Observe que se o filho não existe, então sua altura será 0 (zero).

Exercício

Calcule o fator de balanceamento da raiz das quatro árvores abaixo e informe se estão balanceadas:

Árvore

Solução: 1. 1−3=−21-3=-2 (não), 2. 0−3=−30-3=-3 (não), 3. 3−0=33-0=3 (não), 4. 2−2=02-2=0 (sim), Fig.7 3−2=13-2=1 (sim)

Operações Básicas em ABBB (Exercícios Práticos)

Exercício: Calcule a altura de um nó de uma ABBB

Considere uma Árvore Binária de Busca Balanceada (ABBB) com controle de altura. Dado um nó do tipo NoEnc7, calcule a altura com base na altura dos filhos. Faça um método auxiliar get_altura(no), que dá altura zero para um nó vazio:

int get_altura(const NoEnc7* no) { ... }

int calc_altura(const NoEnc7* no) { ... }

struct NoEnc7 {
   char chave;  
   float dado; 
   int h;      
   NoEnc7* esq; 
   NoEnc7* dir; 
   NoEnc7* pai;  
};

. . .

int get_altura(const NoEnc7* no) {
   return no ? no->h : 0; 
}
int calc_altura(const NoEnc7* no) 
{                      // pre(no)
    int he = get_altura(no->esq);
    int hd = get_altura(no->dir);
    return 1 + (he > hd? he : hd); 
}

Exercício: Calcule o fator de balanceamento de uma ABBB

Considere uma Árvore Binária de Busca Balanceada (ABBB) com controle de altura. Dado um nó do tipo NoEnc7, calcule o fator de balanceamento com método auxiliar get_altura(no) já criado previamente:

int fb(const NoEnc7* no) { ... }

struct NoEnc7 {
   char chave;  
   float dado; 
   int h;      
   NoEnc7* esq; 
   NoEnc7* dir; 
   NoEnc7* pai;  
};

. . .

int get_altura(const NoEnc7* no) {
   return no ? no->h : 0; 
}

int fb(const NoEnc7* no)
// pre(no)               // C++26
{ 
   return get_altura(no->esq) - 
          get_altura(no->dir); 
}

Exercício: Propriedade de um nó regulado em ABBB

Dado um nó do tipo NoEnc7, escreva a propriedade eh_regulado, que retorna verdadeiro caso seu fator de balanceamento seja no máximo 1 em módulo:

bool eh_regulado(auto* no) { ... }

struct NoEnc7 {
   char chave;  
   float dado; 
   int h;      
   NoEnc7* esq; 
   NoEnc7* dir; 
   NoEnc7* pai;  
};

. . .

bool eh_regulado(auto* no) 
// pre(no)        // C++26
{
    return fb(no) == 1 || 
           fb(no) == 0 || 
           fb(no) == -1;
} 

Implementação de Dicionário

Dicionário com AVL

Existem duas implementações populares de árvores balanceadas para dicionários: AVL e rubro-negra.

Iremos explorar a árvore AVL, por sua simplicidade.

Criada em 1962 pelos russos Georgy Adelson-Velsky e Evgenii Landis, ela consegue manter um balanceamento após uma operação de inserção ou remoção.

Basta calcular o fator de balanceamento em cada nó e, caso esteja desbalanceada, algum tipo de operação de rotação será feita.

Nos próximos slides demonstramos as rotações possíveis.

Rotação Simples à Direita

Ocorre quando os fatores de balanceamento são 2 e 1 (ou 0).

Rotacao Simples Vermelha - Z Y X

Após rotação à direita, a árvore fica enraizada em Y, com X à esquerda e Y à direita.

Rotação Simples à Esquerda

Ocorre quando os fatores de balanceamento são -2 e -1 (ou 0).

Rotacao Simples Azul - P Q R

Após rotação à direita, a árvore fica enraizada em Q, com P à esquerda e R à direita.

Rotação Dupla à Direita

Ocorre quando os fatores de balanceamento são 2 e -1. Isso exige duas rotações, uma à esquerda e outra à direita.

Rotacao Simples Esquerda do filho X - Z X Y
Rotacao Simples Direita da raiz Z - Z Y X

Após rotação à esquerda em X, a árvore fica enraizada em Z, mas ainda desbalanceada como 2 1. Uma nova rotação à direita da raiz Z resolve o problema.

Rotação Dupla à Esquerda

Ocorre quando os fatores de balanceamento são -2 e 1. Isso exige duas rotações, uma à direita e outra à esquerda.

Rotacao Simples Direita do filho R - P R Q
Rotacao Simples Esquerda da raiz P - P Q R

Após rotação à direita em R, a árvore fica enraizada em P, mas ainda desbalanceada como -2 -1. Uma nova rotação à esquerda da raiz P resolve o problema.

Praticando as Rotações

Considere uma árvore A3 com nós M, D, O, B, F, N, S, E, L. A exclusão de S não acarreta em desbalanceamento. A exclusão de B gera um desbalanceamento no nó D, com fator 0-2=-2 seguido de 0.

Isso indica uma Rotação Simples à Esquerda, no nó D.

Árvore
Árvore

Qual o final após a rotação? F substitui D, tornando D seu filho à esquerda e E à direita de D, sendo que o filho à direita de F permanece L. A árvore se torna balanceada.

Rotações em AVL (Exercícios Práticos)

Exercício: Faça uma Rotação à Direita em uma AVL

Dado um nó do tipo NoEnc7 desregulado (com peso à esquerda), faça uma rotação à direita na raiz de uma subárvore e retorne a nova raiz da subárvore:

NoEnc7* rotDir(NoEnc7* const raiz) { ... }

struct NoEnc7 {
   char chave;  
   float dado; 
   int h;      
   NoEnc7* esq; 
   NoEnc7* dir; 
   NoEnc7* pai;  
};

. . .

NoEnc7* rotDir(NoEnc7* const raiz) 
// pre(raiz)             // C++26
{
    auto* x = raiz->esq;
    raiz->esq = x->dir;
    if(x->dir) x->dir->pai = raiz;
    x->dir = raiz;
    x->pai = raiz->pai;
    raiz->pai = x;
    raiz->h = calc_altura(raiz);
    x->h    = calc_altura(x);
    return x;  // nova raiz
}

Exercício: Faça o Balanceamento de um nó de AVL

Dado um nó do tipo NoEnc7 regulado ou desregulado, efetue o balanceamento (se necessário) e retorne a nova raiz da subárvore:

NoEnc7* balanceia(NoEnc7* const raiz) { ... }

struct NoEnc7 {
   char chave;  
   float dado; 
   int h;      
   NoEnc7* esq; 
   NoEnc7* dir; 
   NoEnc7* pai;  
};

. . .

NoEnc7* balanceia(NoEnc7* const raiz) 
// pre(raiz)                   // C++26
// post(out: eh_regulado(out)) // C++26
{
  int f = fb(raiz); if (f > 1) {
      if (fb(raiz->esq) < 0)
        raiz->esq = rotEsq(raiz->esq);
    return rotDir(raiz);
  }; if (f < -1) {
      if (fb(raiz->dir) > 0)
        raiz->dir = rotDir(raiz->dir);
      return rotEsq(raiz);
  }
  return raiz; // sem rotação necessária!
}

Algoritmo rebalanceia até a raiz em O(h)

auto* rebalanceia(auto* p)          
// pre(p)
{
  auto* raiz = p;
  while (p) {
    auto* avo = p->pai;
    bool era_esq = avo && avo->esq == p;
    p->h = calc_altura(p);
    auto* nova = balanceia(p);      // rotação já ajusta nova->pai
    if (avo) { if (era_esq) avo->esq = nova; else avo->dir = nova; }
    raiz = nova;
    p = avo;
  }
  return raiz;
}

Implementação de AVL

Estrutura de AVL

Relembrando a estrutura de árvore binária com pai, chave-valor e alturas:

struct NoEnc7 {
   char chave;     // chave de busca
   float dado;     // valor armazenado
   int h;          // altura
   NoEnc7* esq;    // filho esquerdo
   NoEnc7* dir;    // filho direito
   NoEnc7* pai;    // pai
};

struct AVL {
  NoEnc7* raiz;    // raiz da árvore
  int N;           // número de nós
  ...              // métodos típicos: busca, upsert, remove, ...
};

Implementação: upsertAVL

Implementação de “upserção” (inserção, se chave nova, ou atualização, se chave já existe) em árvore binária de busca balanceada não-vazia:

NoEnc7* upsertAVL(char c, float d, NoEnc7* const raiz) 
// pre(raiz)                                  // C++26
{  
  if (c == raiz->chave) { raiz->dado = d; return raiz; }
  if (c < raiz->chave) {
    if (raiz->esq) raiz->esq = upsertAVL(c, d, raiz->esq);
    else raiz->esq = 
      new NoEnc7{.chave=c,.dado=d,.h=1,.esq=0,.dir=0,.pai=raiz};
  } else {
    if (raiz->dir) raiz->dir = upsertAVL(c, d, raiz->dir);
    else raiz->dir = 
      new NoEnc7{.chave=c,.dado=d,.h=1,.esq=0,.dir=0,.pai=raiz};
  }
  raiz->h = calc_altura(raiz); // sempre muda altura até raiz!
  return balanceia(raiz);
}

Algoritmo de Remoção em AVL

auto removeAVL(char c, auto* raiz) {
  if(!raiz) return std::tuple{false, raiz};    // árvore vazia
  auto* no = ::buscaABB(raiz, c);    if(!no)   return std::tuple{false, raiz};
  auto* alvo = tem_dois_filhos(no) ? sucessor(no) : no;  // nó a desligar
  no->chave = alvo->chave;  no->dado = alvo->dado;       // se no==alvo, nada muda
  auto [pai, filho] = extrai(alvo);  // 'alvo' tem no máximo um filho
  delete alvo;
  auto* inicio = pai ? pai : filho;  // de onde subir rebalanceando
  return std::tuple{true, inicio ? rebalanceia(inicio) : inicio};
}

Exemplo de Remoção

Remova o A:

              E                    FB:  E = -1
           /     \                      B = -1,  C = -1
         B         H                    H = -1,  G = +1
        / \       / \                   J = -1,  K = -1
       A   C     G   J
            \   /   / \
             D F   I   K
                        \
                         L

Análise da AVL

Sobre Análise de Complexidade da AVL (revisão)

Para analisar a AVL, retomaremos conceitos importantes apresentados em aulas anteriores (de Árvores binárias):

  • semifolha: nós com pelo menos uma subárvore vazia
    • obs: as folhas também são semifolhas!
  • distância: tamanho de um caminho entre um par de nós
  • rank (ou s-valor): menor distância do nó XX até uma semifolha descendente, denominado s(X)s(X)
    • para semifolha vale 1, e para árvore vazia vale 0
  • altura: maior distância entre um nó XX e uma folha descendente, denominado h(X)h(X)
    • para folha vale 1, e para árvore vazia vale 0
  • árvore balanceada: árvore com altura limitada h∈O(log⁡n)h \in O(\log n), via relação h≤c⋅sh \leq c \cdot s
    • tipicamente 22-balanceada, ou seja, que respeita a relação h(X)≤2⋅s(X)h(X) \leq 2 \cdot s(X) para todo nó
  • Para uma altura hh, Nmin(h)=hN_{min}(h) = h (um caminho) e Nmax(h)=2h−1N_{max}(h)=2^h - 1 (árvore perfeita)
    • sempre vale Nmin≤n≤NmaxN_{min} \leq n \leq N_{max}, e portanto, n≥Nmin(h)n \geq N_{min}(h)
    • encontrando Nmin(h)N_{min}(h) você necessariamente encontra uma altura máxima para dada árvore!

Exercício Prático: AVL é uma Árvore Balanceada

Assuma que T é uma árvore AVL. Para cada nó X de T, afirmamos que s(X)≥⌈h(X)/2⌉s(X) \geq \lceil h(X)/2\rceil.

Para árvores pequenas, a afirmação vale (base). Nó vazio: h=0h = 0 e s=0s=0. Nó folha: h=1h = 1 e s=1s = 1. Suponha que, para toda subárvore AVL de altura menor que hh, a afirmação vale (hipótese de indução).

Considere h≥2h \geq 2 (passo indutivo):

Pela definição recursiva, os filhos de T também são AVL, com alturas h−1h-1 e h−2h-2, ou h−1h-1 e h−1h-1.

Ambas são menores que hh, então a hipótese se aplica a eles: cada filho X tem s(X)≥⌈(h−2)/2⌉=⌈h/2⌉−1s(X) \geq \lceil (h-2)/2\rceil = \lceil h/2\rceil - 1.

Logo s(T)=1+min⁡(s(TE),s(TD))≥1+min⁡(⌈h/2⌉−1,⌈h/2⌉−1)=⌈h/2⌉s(T) = 1 + \min(s(T_E), s(T_D)) \geq 1 + \min(\lceil h/2\rceil - 1, \lceil h/2\rceil - 1) = \lceil h/2\rceil.

Assim, h(X)≤2⋅s(X)h(X) \leq 2 \cdot s(X) em todo nó, ou seja, a AVL é balanceada. Lembrando que toda árvore balanceada tem altura logarítmica h≤2⋅lg(n+1)h \leq 2\cdot lg(n+1).

Sequência de Fibonacci (Revisão)

A sequência de Fibonacci é definida por F(0)=0F(0) = 0, F(1)=1F(1) = 1 e F(k)=F(k−1)+F(k−2)F(k) = F(k-1) + F(k-2), para k≥2k \geq 2:

kk 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
F(k)F(k) 1 1 2 3 5 8 13 21 34 55
F(k)F(k−1)\frac{F(k)}{F(k-1)} - 1 2 1,5 1,67 1,6 1,625 1,615 1,619 1,618

Intuição: a razão entre termos consecutivos se estabiliza em torno de 1,6181{,}618. Ou seja, para kk grande, F(k)≈1,618⋅F(k−1)F(k) \approx 1{,}618 \cdot F(k-1): a sequência se comporta quase como uma progressão geométrica, crescendo exponencialmente.

Esse valor é o número de ouro (ou razão áurea), denotado por φ\varphi.

Número de Ouro: Calculando F(k)F(k)

Desafio: se F(k)F(k) se comporta como uma progressão geométrica rkr^k, quanto vale rr?

  1. Substituindo F(k)=rkF(k) = r^k na recorrência: rk=rk−1+rk−2r^k = r^{k-1} + r^{k-2}
  2. Dividindo por rk−2r^{k-2}: r2=r+1r^2 = r + 1, ou seja, r2−r−1=0r^2 - r - 1 = 0
  3. Por Bhaskara: Δ=(−1)2−4⋅1⋅(−1)=5\Delta = (-1)^2 - 4 \cdot 1 \cdot (-1) = 5, logo r=1±52r = \frac{1 \pm \sqrt{5}}{2}
  4. A raiz positiva é o número de ouro, φ=1+52≈1,618\varphi = \frac{1 + \sqrt{5}}{2} \approx 1{,}618 (a outra é ψ=1−52≈−0,618\psi = \frac{1 - \sqrt{5}}{2} \approx -0{,}618)

Propriedade fundamental: φ2=φ+1\varphi^2 = \varphi + 1 (vem do passo 2).

Observação: como a recorrência é linear, qualquer combinação aφk+bψka\varphi^k + b\psi^k também a satisfaz.

Para que ela seja F(k)F(k), usamos F(0)=0F(0) = 0 e F(1)=1F(1) = 1. Para k=0k=0: aφ0+bψ0=a+b=0a\varphi^0 + b\psi^0 = a + b = 0, ou seja, b=−ab = -a. Para k=1k=1: aφ+bψ=1a\varphi + b\psi = 1, e substituindo b=−ab = -a, temos aφ−aψ=1a\varphi - a\psi = 1, ou seja, a(φ−ψ)=1a(\varphi - \psi) = 1.

Como φ−ψ=5\varphi - \psi = \sqrt{5}, temos a=−b=15a = -b = \frac{1}{\sqrt{5}}, obtendo a fórmula de Binet: F(k)=φk−ψk5≈φk5F(k) = \frac{\varphi^k - \psi^k}{\sqrt{5}} \approx \frac{\varphi^k}{\sqrt{5}} (pois ∣ψ∣<1|\psi| < 1).

Árvore de Fibonacci (AVL Mínima)

Seja N∗(h)N^*(h) o menor número de nós de uma AVL de altura hh. Desafio: encontre N∗(h)N^*(h).

Uma subárvore mínima de altura h−1h-1, e outra mínima com a menor altura permitida, h−2h-2:

N∗(h)=1+N∗(h−1)+N∗(h−2)N^*(h) = 1 + N^*(h-1) + N^*(h-2), com N∗(0)=0N^*(0) = 0 e N∗(1)=1N^*(1) = 1

Somando 11 dos dois lados, N∗(h)+1=(N∗(h−1)+1)+(N∗(h−2)+1)N^*(h) + 1 = (N^*(h-1) + 1) + (N^*(h-2) + 1) segue a recorrência de Fibonacci, começando em 1=F(2)1 = F(2) e 2=F(3)2 = F(3). Logo, N∗(h)=F(h+2)−1N^*(h) = F(h+2) - 1.

          E
        /   \
       C     G
      / \   /
     B   D F
    /
   A

Altura 44: F(6)−1=7F(6) - 1 = 7 nós.

Essas AVLs mínimas são as árvores de Fibonacci: raiz, com árvores de Fibonacci de alturas h−1h-1 e h−2h-2 como filhos. Em todo nó, as alturas dos filhos diferem de exatamente 11, logo são AVL.

Altura da AVL

Uma AVL com altura hh tem n≥N∗(h)n \geq N^*(h) nós. Somando 11 dos dois lados e usando Binet:

n+1≥N∗(h)+1=F(h+2)−1+1≈φh+25n + 1 \geq N^*(h) + 1 = F(h+2) \cancel{-1} \cancel{+1} \approx \frac{\varphi^{h+2}}{\sqrt{5}}, ou seja, n+1≳φh+25\boxed{n+1 \gtrsim \frac{\varphi^{h+2}}{\sqrt{5}}}

Temos que o número de nós cresce exponencialmente com a altura, como φh\varphi^h.

Multiplicando por 5\sqrt{5} e invertendo o lado: φh+2≲5⋅(n+1)\varphi^{h+2} \lesssim \sqrt{5} \cdot (n+1)

Aplicando o logaritmo na base φ\varphi: h+2≲logφ(5⋅(n+1))=logφ(n+1)+logφ5h + 2 \lesssim log_\varphi(\sqrt{5} \cdot (n+1)) = log_\varphi(n+1) + log_\varphi \sqrt{5}

Subtraindo 22 dos dois lados:

h≲logφ(n+1)+(logφ5−2)≈1,44⋅lg(n+1)−0,33\boxed{h \lesssim log_\varphi(n+1) + (log_\varphi \sqrt{5} - 2) \approx 1{,}44 \cdot lg(n+1) - 0{,}33}, ou seja, h∈O(1,44lg⁡n)h \in O(1{,}44 \lg n)

pois logφ x=lg xlg φlog_\varphi\, x = \frac{lg\, x}{lg\, \varphi}, com 1lg φ≈1,44\frac{1}{lg\, \varphi} \approx 1{,}44, e logφ5−2≈1,67−2=−0,33log_\varphi \sqrt{5} - 2 \approx 1{,}67 - 2 = -0{,}33.

Exemplo: com n=220−1n = 2^{20} - 1, temos h≲1,44⋅20−0,33≈28,5h \lesssim 1{,}44 \cdot 20 - 0{,}33 \approx 28{,}5, ou seja, h≤28h \leq 28, contra 4040 de uma árvore 22-balanceada qualquer.

Árvores Rubro-Negras

Árvore Rubro-Negra: O que é?

Uma árvore rubro-negra é uma ABB em que cada nó possui uma cor (vermelho ou preto), usada para controlar o balanceamento no lugar da altura.

  • Proposta por Bayer (1972) como árvore B binária simétrica; o nome rubro-negra vem de Guibas e Sedgewick (1978)
  • Os ponteiros nulos são tratados como nós nulos (ou externos), todos pretos
  • Basta trocar o campo int h do NoEnc7 por um bool vermelho (1 bit de informação!)
  • Usada em std::map/std::set (libstdc++), TreeMap (Java) e no kernel Linux

Ideia: o balanceamento é menos rígido que na AVL (árvore um pouco mais alta), em troca de menos rotações nas atualizações.

Propriedades da Árvore Rubro-Negra

Além das propriedades de ABB, uma árvore rubro-negra satisfaz:

  1. Todo nó é vermelho ou preto
  2. Todo nó nulo é considerado preto
  3. Um nó vermelho não possui filho vermelho (não há vermelhos consecutivos)
  4. Todo caminho de um nó XX até qualquer nó nulo descendente passa pelo mesmo número de nós pretos
  5. (Conclusão) Se um nó tem exatamente um filho, esse filho é vermelho (e é folha)

Exercício: justifique a propriedade 5 usando as propriedades 2, 3 e 4.

Propriedade 5: se N tem só o filho C, o lado vazio de N tem 0 pretos internos. Se C fosse preto, os caminhos por C teriam pelo menos 1 preto interno, violando a propriedade 4. Logo C é vermelho. Pelo mesmo motivo, os filhos de C não podem ser nós internos pretos, e pela propriedade 3 também não podem ser vermelhos. Então C é folha.

Altura Negra

Altura negra bh(X)bh(X): número de nós pretos de um caminho de XX até um nó nulo, sem contar XX (bem definida pela propriedade 4).

Observações:

  • Alguns autores (Cormen et al.) exigem raiz preta; outros não (Mehlhorn e Sanders, Sedgewick e Wayne). Pintar uma raiz vermelha de preto nunca quebra as propriedades, e sem essa regra toda subárvore de uma rubro-negra também é rubro-negra
  • Toda árvore binária perfeita só com nós pretos é rubro-negra

Exemplo: Árvore A3A3 Colorida

                M(P)
            /          \
        D(V)            O(P)
       /    \          /    \
    B(P)    F(P)    N(V)    S(V)
    /  \    /  \    /  \    /  \
  []   [] E(V) L(V) []  []  []  []
          / \  / \
        []  [] [] []
  1. preto, (V) vermelho, [] nó nulo (preto)
  • Vermelhos (DD, EE, LL, NN, SS) só têm filhos pretos
  • bh(M)=2bh(M) = 2 em todo caminho:
    • M→D→B→M \to D \to B \to []: pretos BB, []
    • M→D→F→E→M \to D \to F \to E \to []: pretos FF, []
    • M→O→N→M \to O \to N \to []: pretos OO, []
  • n=9n = 9 nós internos e n+1=10n + 1 = 10 nulos
  • A subárvore de DD (raiz vermelha) também é rubro-negra

Exercício: pinte MM de vermelho. E se, em vez disso, pintar DD de preto? Quais propriedades deixam de valer?

Operações Básicas em Rubro-Negra

Muito do que já foi visto se reaproveita:

  • Busca, mínimo e sucessor: idênticos aos da ABB (buscaABB, minimo, sucessor), pois a cor não interfere na ordem
  • Rotações: as mesmas rotDir/rotEsq da AVL, sem as linhas que atualizam h
  • Recoloração: trocar a cor de um nó, em O(1)O(1)
struct NoEnc8 {
   char chave;      float dado;
   bool vermelho;   // no lugar de 'int h'
   NoEnc8* esq;     NoEnc8* dir;     NoEnc8* pai;
};
bool eh_vermelho(const NoEnc8* no) {
   return no && no->vermelho;   // nó nulo é preto (propriedade 2)
}

Compare com get_altura da AVL: lá o nó nulo tem altura 0; aqui, o nó nulo é preto.

Inserção em Rubro-Negra

Insira como na ABB (upsertABB) e pinte o novo nó NN de vermelho: a propriedade 4 continua valendo, mas a 3 pode ser violada. Sejam PP o pai, AA o avô e TT o tio de NN:

  1. NN é raiz, ou PP é preto: nada a fazer, fim
  2. PP é vermelho e é raiz: pinte PP de preto, fim
  3. PP e TT vermelhos: pinte PP e TT de preto e AA de vermelho; repita com N:=AN := A (sobe dois níveis)
  4. PP vermelho e TT preto, com NN em zigue-zague (ex: NN à direita de PP, PP à esquerda de AA): rotacione em PP, trocando os papéis de NN e PP, e siga para o caso 5
  5. PP vermelho e TT preto, com NN em linha com PP e AA: rotacione em AA, pinte PP de preto e AA de vermelho, fim

O caso 3 pode se repetir O(log⁡n)O(\log n) vezes, mas só recolore. Rotações: no máximo 2 (casos 4 e 5).

Observação: os casos 4 e 5 juntos são exatamente a rotação dupla da AVL!

Exemplo: Inserção de GG na A3A3 Colorida (1/2)

Antes: GG inserido como vermelho, à esquerda de LL:

         M(P)
       /      \
    D(V)       O(P)
   /    \      /  \
 B(P)   F(P) N(V) S(V)
       /   \
     E(V)  L(V)
           /
         G(V)

LL e GG vermelhos: viola a propriedade 3! Pai P=LP=L e tio T=ET=E vermelhos, avô A=FA=F.

Caso 3: LL e EE ficam pretos, FF fica vermelho:

         M(P)
       /      \
    D(V)       O(P)
   /    \      /  \
 B(P)   F(V) N(V) S(V)
       /   \
     E(P)  L(P)
           /
         G(V)

Agora FF e DD são vermelhos! Com N:=FN := F: pai P=DP=D vermelho, tio T=OT=O preto, em zigue-zague. Próximo passo: rotação à esquerda em DD (caso 4).

Exemplo: Inserção de GG na A3A3 Colorida (2/2)

Caso 4: rotação à esquerda em DD:

            M(P)
          /      \
       F(V)       O(P)
      /   \       /  \
    D(V)  L(P)  N(V) S(V)
   /  \    /
 B(P) E(P) G(V)

Agora DD, FF e MM estão em linha. Próximo passo: rotação à direita em MM (caso 5).

Caso 5: rotação à direita em MM; FF fica preto e MM fica vermelho:

          F(P)
       /       \
    D(V)        M(V)
   /   \       /    \
 B(P)  E(P)  L(P)   O(P)
             /      /  \
           G(V)   N(V) S(V)

Altura negra 2 em todo caminho. Fim!

Remoção em Rubro-Negra

Remova como na ABB (removeABB): se o nó tem dois filhos, troque pelo sucessor, recaindo em um nó XX com no máximo um filho.

  • XX tem um filho: pela propriedade 5, é uma folha vermelha; substitua XX por ele e pinte-o de preto, fim
  • XX é folha vermelha: remova, fim
  • XX é folha preta: os caminhos por XX perdem um preto (caso difícil). Sejam PP o pai e II o irmão de XX:
    1. XX é raiz: todos os caminhos perderam um preto igualmente, fim
    2. II vermelho: rotacione em PP (para o lado de XX) e troque as cores de PP e II; recai nos casos seguintes
    3. II preto com sobrinhos pretos: pinte II de vermelho; se PP é vermelho, pinte-o de preto e fim; senão, repita com X:=PX := P (sobe um nível)
    4. II preto, sobrinho próximo vermelho e distante preto: rotacione em II (para longe de XX), trocando as cores de II e do sobrinho; recai no caso 5
    5. II preto com sobrinho distante vermelho: rotacione em PP (para o lado de XX), II assume a cor de PP, e PP e o sobrinho distante ficam pretos, fim

O caso 3 pode se repetir O(log⁡n)O(\log n) vezes, mas só recolore. Rotações: no máximo 3.

Exercício Prático: Rubro-Negra é uma Árvore Balanceada

Afirmamos que h(X)≤2⋅s(X)h(X) \leq 2 \cdot s(X) para todo nó XX (contando nós internos, como na AVL).

Seja p(X)p(X) o número de nós pretos internos em um caminho de XX até um nó nulo (o mesmo para todos os caminhos, pela propriedade 4), e seja δ=1\delta = 1 se XX é vermelho, ou δ=0\delta = 0 se XX é preto.

Considere qualquer caminho de XX até um nó nulo, com kk nós internos:

  • Ele contém os p(X)p(X) pretos, e também XX se este for vermelho: k≥p(X)+δk \geq p(X) + \delta
  • Todo vermelho diferente de XX tem pai preto no próprio caminho (propriedade 3), e pais distintos: há no máximo p(X)p(X) vermelhos além de XX, logo k≤2⋅p(X)+δk \leq 2 \cdot p(X) + \delta

Aplicando ao caminho mais curto e ao mais longo:

s(X)≥p(X)+δs(X) \geq p(X) + \delta \quad e h(X)≤2⋅p(X)+δ≤2⋅(p(X)+δ)≤2⋅s(X)\quad h(X) \leq 2 \cdot p(X) + \delta \leq 2 \cdot (p(X) + \delta) \leq 2 \cdot s(X)

Assim, a rubro-negra é 22-balanceada e, portanto, h≤2⋅lg(n+1)h \leq 2 \cdot lg(n+1). ■\blacksquare

Alternativa (Cormen et al.): por indução, uma subárvore com altura negra bhbh possui pelo menos 2bh−12^{bh} - 1 nós internos.

AVL ×\times Rubro-Negra

AVL Rubro-Negra
Informação por nó altura (int h) cor (1 bit)
Altura máxima ≈1,44⋅lg(n+1)\approx 1{,}44 \cdot lg(n+1) 2⋅lg(n+1)2 \cdot lg(n+1)
Rotações na inserção no máximo 1 (simples ou dupla) no máximo 2
Rotações na remoção até O(log⁡n)O(\log n) (exemplo anterior!) no máximo 3
Melhor para muitas buscas muitas inserções/remoções

Ambas garantem busca, inserção e remoção em O(log⁡n)O(\log n). Na rubro-negra, os ajustes ao subir na árvore são feitos majoritariamente por recoloração, que é O(1)O(1) por nível.

Conexão com a próxima aula: cada nó preto, junto com seus filhos vermelhos, equivale a um nó de uma Árvore B de ordem 4 (árvore 2-3-4) com até 3 chaves, e bhbh corresponde à altura dessa Árvore B.

Próximas aulas

Veremos mais implementações de dicionários, com Tabelas Hash (sem árvores) e com Árvores B (multivias, não binárias!).

Até breve!

Bibliografia Recomendada

Além da bibliografia do curso, recomendamos para esse tópico:

  • Szwarcfiter, J.L; Markenzon, L. Estruturas de Dados e seus Algoritmos. Rio de Janeiro, LTC, 1994. Bibliografia Adicional:
  • Cerqueira, R.; Celes, W.; Rangel, J.L. Introdução a estruturas de dados: com técnicas de programação em C. Editora, 2004.
  • Cormen, T.H.; Leiserson, C.E.; Rivest, R.L.; Stein Algoritmos: Teoria e Prática. Ed. Campus, 2002.
  • Cormen, T.H.; Leiserson, C.E.; Rivest, R.L.; Stein, C. Introduction to Algorithms, 3rd ed.. The MIT Press, 2009.
  • Preiss, B.R. Estruturas de Dados e Algoritmos Ed. Campus, 2000;
  • Knuth, D.E. The Art of Computer Programming - Vols I e III. 2nd Edition. Addison Wesley, 1973.
  • Graham, R.L., Knuth, D.E., Patashnik, O. Matemática Concreta. Segunda Edição, Rio de Janeiro, LTC, 1995.
  • Livro “The C++ Programming Language” de Bjarne Stroustrup
  • Dicas e normas C++: https://github.com/isocpp/CppCoreGuidelines

Agradecimentos

Pessoas

Em especial, agradeço aos colegas que elaboraram bons materiais, como o prof. Fabiano Oliveira (IME-UERJ), e o prof. Jayme Szwarcfiter cujos conceitos formam o cerne desses slides.

Estendo os agradecimentos aos demais colegas que colaboraram com a elaboração do material do curso de Pesquisa Operacional, que abriu caminho para verificação prática dessa tecnologia de slides.

Software

Esse material de curso só é possível graças aos inúmeros projetos de código-aberto que são necessários a ele, incluindo:

  • pandoc
  • LaTeX
  • GNU/Linux
  • git
  • markdown-preview-enhanced (github)
  • visual studio code
  • atom
  • revealjs
  • groomit-mpx (screen drawing tool)
  • xournal (screen drawing tool)
  • …

Empresas

Agradecimento especial a empresas que suportam projetos livres envolvidos nesse curso:

  • github
  • gitlab
  • microsoft
  • google
  • …

Reprodução do material

Esses slides foram escritos utilizando pandoc, segundo o tutorial ilectures:

  • https://igormcoelho.github.io/ilectures-pandoc/

Exceto expressamente mencionado (com as devidas ressalvas ao material cedido por colegas), a licença será Creative Commons.

Licença: CC-BY 4.0 2020

Igor Machado Coelho

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